Uma passagem para Farhampton, por favor

Quinta, 12 de abril de 2018


Uma das sacadas mais geniais que How I Met Your Mother tinha, era em como a personagem “mãe” foi utilizada nas temporadas, mesmo de maneira invisível. Ela era responsável por nortear as ações do Ted Mosby, funcionando como um guia, aquele grilo falante.

Mas como a mãe poderia aconselhar o jovem apaixonado, sem nem ao menos o conhecia? É nesse ponto que quero chegar. Explico.

O esquema da série funciona em contar algo que já aconteceu. Basicamente pe o pai contando aos filhos sobre situações que já aconteceram, com aquela liberdade que todos temos em dar uma aumentada aqui, uma diminuída ali. Chamar maconha de sanduíche e vício em jogos de vício em jogos de tabuleiro. São licenças poéticas que todos os pais fazem para os filhos.

Até aqui, tudo bem. Estamos sentados juntos com Luke e Penny (que quase se chamou Leia) escutando com atenção as histórias de um Ted Mosby quarentão. Mas não nos esqueçamos, esse arquiteto agora é um pai de família e isso conta. Na verdade, conta demais.

"Pai, passamos nossa pré-adolescência inteira aqui! Até os móveis mudaram"

Porque a diferença das histórias que ele contaria em uma mesa de bar para a gente, daquelas que contou no sofá da sala para seus filhos, além de ser para eles, é o quanto aprendeu, ou melhor, o quanto tem de ensinar a eles. É o Ted sendo pai.

É no ensinar que conhecemos a mãe sem nem ao menos ter visto o seu rosto por longas oito temporadas. De ser tão citada, reverenciada, do motivo maior dessa série existir, afinal de contas, a série não se chama Como conheci a sua mãe à toa. A gente acaba meio que se sentindo próximo dela.

Vejam só, não foram poucas as vezes que a gente se pegou com a sensação de que “ele está tão perto dela” ou “a hora do encontro está chegando” ou ainda “meu, como ela deve ser sensacional”.

Nada de bom acontece depois das duas horas. Dj ou banda. Guarda-chuva trocado. Sair com a colega de quarto e ver uma lasquinha do tornozelo. O ano em que deu tudo errado ser aquele que inicia como o ponto de virada da sua vida. Dar aula na mesma faculdade que a futura mãe estuda. Luvas para dirigir. Rir de trocadilhos feito com comida. Ligar no dia seguinte, desrespeitando a regra dos três dias.

"Vamos brindar! Faz um episódio que eu não sou citada"

Em nenhum desses momentos temos ideia sequer de como seja a sua voz, mas de alguma maneira, ela tem essa presença invisível. Contar o que já aconteceu se torna o maior trunfo da série.

O passado está ali, da maneira que o Ted lembra, ou dá versão que ele prefere que seja contada, e a presença da mãe, a reflexão de como tudo o que ele passou foi um preparo para o exato momento em que se encontrou na estação de Farhampton, faz com que a presença da mãe pudesse ser sentida pelos espectadores.

Essa foi a maior sacada da série.

Atiçando a curiosidade, preparando o terreno e salientando a importância da mãe que, com todos os méritos e da maneira mais óbvia que se pode imaginar, roubou a cena na última temporada.

Mas esse é papo para outra hora.

Abraços,

Rafael Moreno


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