Filme, livro e o Lado Bom Disso Tudo

Quarta, 28 de março de 2018


O que a gente mais tem no cinema, atualmente, é uma leva de produções baseadas em livros e quadrinhos. Com uma boa ênfase na segunda opção.

Daí, sabendo que existe um livro, a gente procura ler antes de assistir os filmes. Ou simplesmente lemos porque, em algum momento da sua vida aquele livro te chamou a atenção na estante da loja.

Tá lá você todo empolgado para assistir ao filme baseado no livro. Então, assim que acaba, você olha para os lados com uma cara de “méh...poderia ter sido um pouco diferente” ou, na pior das hipóteses, “eles mudaram todo o livro”.

Tá, te entendo. Te entendo mesmo. Também aconteceu comigo e me custou entender, por mais simples que seja, que os filmes baseados em livros não foram feitos para o público do livro.

E ainda com um “q” de injustiça. Como é que pode um filme inteiro feito por conta do livro não ser voltado para os leitores? Mas que infernos de "apropriação" é essa?

Então, meu caro, é o seguinte. A diferença essencial, e que faz com que tenhamos algumas adaptações na história (seja recorte, adições ou até mesmo mudanças) é a simples questão do público que se conversa.

E isso faz uma puta diferença.

"Reação das pessoas quando escutam que o filme pode ser melhor que o livro"

Ainda mais em termos narrativo, se levarmos em conta a questão do ritmo e em como o filme tem que se virar para introduzir um personagem, cena ou contexto dentro de uma película de 120 minutos sem cansar o espectador e/ou parecer confuso demais.

Nada melhor do que usar como exemplo aquele livro e filme que me fez pensar nisso. Não que nada do que foi dito, até agora, seja algo espetacular e que a gente nunca houvesse parado para pensar. Na verdade, foi aquele filme que parei e pensei “bem, compreendo, de verdade mesmo”.

Bora falar um pouquinho sobre O Lado Bom da Vida.

O Lado Bom da Vida conta a história de Pat Peoples, um ex-professor de história que acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Ele jura que passou somente alguns meses no que chama de "lugar ruim". Pat não se lembra do que fez para ir lá. O que ele conta é que Nikki, a sua esposa, quis que ficassem um "tempo separados"

Uma das coisas que mais curto no livro do Mattew Quick é em como ele oferece uma dinâmica à rotina do Pat, que, num primeiro instante, parece ser metodicamente repetitiva, mas, com a narrativa, torna-se algo diferente, dia após dia. Ao nos fornecer os olhos do Pat, a gente passa a compreender seus questionamentos e em como cada dia, para ele, era algo totalmente diferente, mesmo que seu dia se baseasse numa corrida matinal.

"Cara, o personagem do Chris Tucker tem participação maior no filme. Como não curtir?"

Bem, eu sabia que tinha um filme, então porque não assistir, certo? No elenco tinha a Jennifer Lawrence, que ganhou o Oscar justamente com a personagem desse filme, Bradley Cooper, Robert de Niro, e caramba, tinha o Chris Tucker!

Não tinha como errar. Não tinha mesmo. Era só seguir direitinho o que estava no livro. Porém, assim que o filme terminou, eu fiquei meio “méh...poderia ter sido diferente”.

A sensação é agridoce.

Sabe aquele "gostei mas não gostei"?

E eu me perguntava o porque disso, mesmo sabendo que se tratava de uma adaptação e todas as outras coisas. Foi quando eu percebi que, na verdade, o errado nessa história sou eu.

Sim, meu caro e minha cara, somos culpados. Claro que isso não isenta o filme de ser bom ou ruim dentro daquilo que se propõe. Mas não podemos pautar seus erros e acertos de acordo com o livro, por mais que ele tenha bebido da fonte por lá. Até mesmo pelo simples raciocínio que devemos seguir: o público do cinema é o público do cinema. Nem mais nem menos inteligente ou interessante por conta disso.

Um público que vai pra assistir ao filme sem o conhecimento prévio dos fatos, porque é disso que se trata a adaptação: o cinema apresenta uma história para o seu público e nada além disso. Ela está lá, do zero, sendo desenvolvido de acordo com os moldes da película, com diversas tomadas de decisões para aumentar ou diminuir o ritmo, para comprimir ou estender uma subtrama mas, principalmente, para que o público do cinema consiga compreender a história, julgando seus valores como faz com qualquer outro filme.

"Ahhhhh as corridas matinais..."

Então eu volto a ver o Lado Bom da Vida (desculpe o trocadilho) sem aquelas amarras do tipo “hmmm não estava no livro”, “isso não está certo”, “faltou desenvolver mais” e, não é que o filme é tudo isso mesmo, que fez com que a Jennifer Lawrence fosse merecedora do Oscar?

Parece um exercício de compreensão muito besta, até mesmo meio bobo, mas, o quanto mais cedo a gente encarar uma adaptação como uma adaptação de fato, menos dor de cabeça e mais divertimento teremos, não é mesmo?

Afinal de contas, a história completa eu já tenho nos livros.

Se me derem licença, vou ver se assisto ao Senhor dos Anéis, já que nunca li nenhum livro do Tolkien.

Abraços,

Rafael Moreno


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