Faça da comédia a sua hora, Butters

Quinta, 22 de março de 2018


Não sei se já repararam, mas o blog deste que vos escreve anda referenciando muitos desenhos. Até agora, pelo que lembro, Dragon Ball Z, Pernalonga, Tom e Jerry, Pica-pau, Rick e Morty. Acredite, tirando o último, todos foram assistidos na infância, com a tabelinha das manhãs entre os programas do SBT e da Globo.

Pensando nisso, e se esse blog parece infantil ou alguma coisa nostálgica, notei que os desenhos, assim como as séries de comédia, nos marcam mais do que outros gêneros quando falam de maneira “séria”. Subvertem a própria lógica e tudo aquilo que estamos acostumados a ver.

Lembre a relação de pai e filho entre o Will e seu pai, Lou, na série Um Maluco no Pedaço, ou a relação entre Barney e seu pai em How I Met Your Mother. O primeiro a gente perdia um tempo cantando o tema da abertura e o segundo, a gente decorava todos os “high fives” e “legen...wait for it...dary!”. Por isso que, quando somos pegos com esses personagens fora do seu lugar comum, aquilo costuma nos marcar.

"Caramba, essa cena, era para ter rir com ela. Ou não?"

Veja bem, o que espero num filme de drama é drama. Num filme de terror, quero tomar uns sustos firmeza e na comédia, rir um pouco para espairecer de um dia corrido.

Então a gente toma esse choque, excelente por sinal. É como se a gente ficasse “puta merda, não acredito que fizeram isso com ele. Logo ele, que me fazia rir”.

Um outro exemplo foda é South Park que, por si só, já é um desenho foda com um humor bem ácido e crítico quanto aos costumes da sociedade americana (confesso que tem alguns episódios escatológicos, mas não levem eles em consideração).

South Park segue a mesma linha de raciocínio. Uma série de humor que subverte nossa expectativa quando fala “sério” com a gente. Quer ver só uma coisa?

Olha como o personagem Butters nos diz sobre aceitar os sentimentos ruins como natural da nossa existência, sem se inclinar para a revolta contra tudo e contra todos, e nem sermos aquelas pessoas que pregam a falsa felicidade.

Na história, ele se apaixona por uma garçonete do Hooters e, dentro do seu imaginário, eles estão tendo uma história bonita de amor. Até que um dia ele a flagra atendendo uma outra criança e, com isso, vê a relação dos dois acabada. Tristonho no meio da rua, ele é questionado por um grupo sobre o porquê não usar essa tristeza como uma válvula de revolta com a sociedade. A resposta? Saca só:

"Pois sim, e estou triste, mas ao mesmo tempo estou muito feliz de que algo poderia me fazer sentir tão triste. É algo assim que me faz sentir vivo, sabe? Me faz sentir humano. E a única maneira em que poderia me sentir triste agora, é se eu sentia algo realmente bom antes. Então eu tenho que pegar o que me faz mal e ver o que há de bom. É como se fosse uma bela tristeza."

Parece que a gente presta bem mais atenção quando um personagem sai do seu lugar comum, né? Com isso, ele meio que nos obriga a sair do lugar comum também, nos fazendo parar para entender o que diabos está acontecendo com ele.

Quer dizer que o drama funciona melhor na comédia? Não necessariamente. Assim como uma piada num filme dramático não seria a melhor ideia do mundo. Aliás, o drama funciona melhor como o drama, assim como o terror funciona melhor no terro.

Poreeeeeemmmm, por esse novo elemento subverter as nossas expectativas, creio que somos pego de surpresa, despreparados, bem mais do que se assistíssemos algo assumidamente existencial ou coisa do tipo.

Resumo da ópera: tô falando demais de desenho, daqui a pouco isso vai parecer um blog de conteúdo infantil, nostálgico ou os dois.

Abraços,

Rafael Moreno


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